Era uma daquelas mulheres de cabelos compridos, muitas ocupações e vários tropeços pela vida (literalmente!). Dona de uma alma multicolorida e de um coração altamente derretível. Através dos óculos anti-reflexo podia-se ver sutilmente refletida a essência que carregava nos olhos… A essência de acreditar que o mundo poderia ser seu. Mas não se conformava com o fato de que, às vezes, pediam-lhe a identidade para entrar no sex shop. Como no auge dos seus 20 anos ainda ter essa carinha de menina? Mirou, então, um novo alvo: Ela queria ser uma mulher notavelmente poderosa e devastadoramente sexy.
E com a determinação de sempre foi atrás da “injeção” de que precisava. Pesquisou em vários “manuais” das mulheres poderosas, listou os trejeitos das mulheres sexys e começou a busca desenfreada pelo ideal imposto por essa sociedade perversa. Logo providenciou a chapinha e tornou-se dela uma súdita. Não suportava a ideia de fazer as unhas toda semana, mas sujeitava-se a isso pois sabia que era apenas um dos meios para se chegar ao fim. E a cada nova cor nas unhas, era uma cor a menos naquela alma multicolorida. A cada movimento sistematicamente previsto um pouco do brilho do espírito livre se deslocava para os cabelos agressivamente lisos.
Tentava todos os dias equilibrar-se no salto, enquanto seu ego caia da autenticidade para uma invenção estereotipada. E nos momentos em que surgia um raio de espontaneidade através de um sorriso largo e despreocupado, logo pensava “foco!” e os movimentos robotizados tenebrosamente retornavam. Deparava-se a todo instante com um alguém estranho a quem ela se referia em primeira pessoa. Um eu que ela não reconhecia. Percebeu que por trás dos óculos não se via mais a essência que outrora a enchia de energia. Sentiu, então, a súbita ânsia de encontrar o caminho de volta pra si e, quem sabe, achar a leveza que fugiu sem deixar rastros.
Deixou de querer ser sexy pra ser ela mesma. Desceu do salto e assumiu a rasteirinha com aquele vestidinho solto que ela adora. Anda distraída, às vezes tropeça, mas nada lhe tira a leveza de estar de acordo com sua verdade. Pinta as unhas e o rosto quando sente vontade, mas colore o mundo com a áurea iluminada e as gargalhadas autênticas. As ondas dos cabelos agora dançam harmoniosamente, soltas no ar. Não liga se tem carinha de menina, porque sabe que dentro dela há uma mulher muito melhor que as vãs rotulações podem supor. Ela se deparou novamente com a avassaladora sensação de ser livre! E há quem diga que isso a torna peculiarmente… sexy
#autobriografia
7 de outubro de 2012

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