domingo, 30 de junho de 2019

A brasa no chão do meu peito



(Além do moreno, a outra inspiração -> Aponte - Maria Bethânia)

Ôh moreno, tua passagem pôs fogo na secura do sertão desse meu coração abandonado. Um fogo forte, com labaredas tão altas que chegaram até o céu do meu desassossego. Foi invadindo cada canto dessa alma árida, assim mesmo, sem pedir licença. Não te sintas, porém, como um bandido indesejado. Lá no fundo, cada ranhura desse chão suplicava o sobressalto da quentura de tua presença febril, intensa, vigorosa. Teu juízo só te despertou pra reconhecer de longe uma propriedade que é só tua, escriturada pelo destino, de papel passado e tudo.

Meu moreno, tu és fogo e chegaste com esse teu fogo destruidor e que, ao mesmo tempo, possibilita a vida. Tão súbito me tomaste que, de medo, até soprei pra ver se apagava, mas meu sopro combustível só fez aumentar a explosão. Teu incêndio incinerou e desfez de repente tudo que era de entulho enquanto arava esse solo infértil, presenteando-o com o broto fecundo de um amor que eu nem sabia que pudesse existir. E eu renasci e nasceu dentro de mim uma vontade de povoar esse mundo inteiro com a poesia abundante da tua existência.

Ah, moreno, por que tu foste tão breve? Veio desmantelando tudo, revirando a vida, acendendo os desejos, dos mais sagrados aos mais profanos. Levantaste tanta poeira com teu vento imponente que fez até redemoinho de emoção, de sentimento, de um monte de coisa que eu nem sei dizer o nome. Eita, meu menino moreno, tua chama cortante até hoje, mesmo depois de ida, inflama e borbulha nesse ser a vontade despida de te entregar cada pedaço de terra desse corpo.

Vá, moreno! Vá. Mas deixe comigo uma faísca. A faísca da esperança de receber outra vez a tua tempestade de fogo. Nesse dia a profecia do poeta há de se realizar. No dia que de novo, de longe, te avistar no meu horizonte... ah, o meu sertão há de virar mar.

Dedicado a D.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Ctrl C


(Desperdiçou - Sandy e Junior)

É tão louco ver você cometendo o mesmo erro que cometi há uns anos.
Troquei o amor e o carinho de um cara que fazia tudo por mim pela ilusão de uma pessoa que eu pensava amar, mas que na verdade nunca valorizou o que dei.
Com a lucidez de hoje consigo perceber nitidamente como eu estava entorpecida com o veneno da demência. Qualquer idiota poderia notar que eu e aquele rapaz não tínhamos a mínima chance de dar certo um dia. Mas na minha cabeça ele era o príncipe de cavalo branco.
Eu te entendo, sabe. Entendo mesmo. A fantasia engana a gente.
Mas espero que o desenrolar do enredo seja melhor pra você do que foi pra mim.
Eu comi o pão que o diabo amassou e chorei as entranhas por esse moço que no início eu desperdicei. Por que a ficha caiu e chegou o dia em que eu me dei conta da besteira que eu fiz.
Deixei de me entregar e me dar a oportunidade de ser amada por alguém que valia a pena amar. Perdi a chance de construir algo com alguém que gostava de mim, com alguém com que me dava bem, que me fazia bem, me fazia rir.
Tão iludida me precipitei, tropecei, caí e quando tentei reparar o erro já era tarde.
Mas nada diz que a sua experiência será como a minha. É só uma pequena observação.
Desejo de verdade que a conclusão da sua história seja diferente... ou não.

Frio



(Ida nem volta - Sandy e Junior)

Doeu sentir o frio que saiu da sua boca ao pronunciar meu nome. Esse nome que quase nunca era emitido por você frente a tantas denominações fofinhas e carinhosas das quais você lançava mão pra se referir a mim. Doeu tanto que o choro, até então recolhido, encontrou uma fresta para se libertar. Veio tímido, baixinho, exatamente como me vejo agora.

Me encontro desorientada, na confusão entre ter que me conformar e do querer ir correndo em desespero atrás de você. Querendo te esquecer ao passo que tento enviar mensagens por telepatia. Elaborando formas de te prender no meu corpo, enquanto te afasto na ilusão de não entranhar seu cheiro no meu. Gastando as últimas gotas de energia pra ensaiar um texto inútil que de nada vai adiantar.

Sua decisão já foi tomada e seu coração não me escolheu.

Começamos a construir algo que hoje só serve para estar entre nós.

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...Era só mais um dia de executar o check list do ritual cotidiano de um sábado, incluindo o questionamento automático sobre pra onde estou indo com a minha vida. Um sábado como tantos outros, cheio de novidades repetidas, as mesmas preocupações e fantasias. Os mesmos lugares e pessoas com enredos maçantes. Era só mais um dia sem nenhuma intenção de que fatos extraordinários acontecessem. E aconteceu.

Para minha grata e desajeitada surpresa aconteceu e eu não estava nem com a minha melhor roupa. A cara totalmente limpa, a alma completamente exposta e o computador interno tentando reprogramar as horas restantes daquela tarde fora da curva. Improvisar nunca foi a minha melhor habilidade. Nunca soube muito bem lidar com imprevistos e me deparo no meio de um embaraço. Um delicioso embaraço. O melhor sobressalto. O desfibrilador que devolveu os batimentos de uma existência letárgica. 

Não tive muito tempo pra me incomodar com roupas, palavras ou superficialidades externas. A profundidade com que me atingia aquela presença dispensava qualquer inquietação. O meu olhar, de tanto brilho, competia com o sol... e ganhava. O calor daquele ser recém chegado estranhamente familiar derretendo o gelo e o transformando em coração me tornava mais acessível a mim. O amor usurpando a trivialidade, tornando todos os momentos tão únicos. Envolta no aconchego de braços acolhedores, mãos afetuosas e beijos inflamados, eu me elevava a uma experiência transcendental.

O mundo havia se tornado lar. A previsão do tempo só me dizia que o tempo passava muito rápido quando ele estava perto e por isso eu deveria viver e gravar o máximo de detalhes daquela realidade sem precedentes. Ás vezes era difícil crer que a sorte, enfim, me sorteara dentre 7 bilhões de possibilidades. Cada instante era um presente regado pela fé na esperança de um futuro intenso e tranquilo, achado. 

Foi quando em um piscar, mais que de repente, de súbito, outro susto me obriga a reorganizar tudo que já estava arranjado. A sorte reparou o equívoco e levou de volta o bálsamo que, por engano, deixou pra mim. O corte, de tão brusco, anestesiou antes mesmo de doer. Como se eu estivesse nos segundos finais da queda livre antes do baque brutal no solo duro, seco. De novo volto a escrever a minha biografia que fora pausada para a narração de um sonho que, repentina e despretensiosamente, começou e já chegou ao fim.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Paredes



Eu preparei a casa, o jantar
Deixei a porta e a vida abertas pra você entrar
Você chegou, construiu seu lar
Se aconchegou, mudou emoções de lugar
Um vulcão na minha sala de estar

Surgiu como um raio, ventania, explosão
Tornou nosso o que era tão meu
Acomodou-se em cada canto, quarto, vão
Criou espaços que hoje são breu

De súbito, estranhamente, enfim
Num gesto louco, insano
Você se mudou de mim
Para algum lugar que eu nem sei
Talvez nunca tenha estado aqui