Para minha grata e desajeitada surpresa aconteceu e eu não estava nem com a minha melhor roupa. A cara totalmente limpa, a alma completamente exposta e o computador interno tentando reprogramar as horas restantes daquela tarde fora da curva. Improvisar nunca foi a minha melhor habilidade. Nunca soube muito bem lidar com imprevistos e me deparo no meio de um embaraço. Um delicioso embaraço. O melhor sobressalto. O desfibrilador que devolveu os batimentos de uma existência letárgica.
Não tive muito tempo pra me incomodar com roupas, palavras ou superficialidades externas. A profundidade com que me atingia aquela presença dispensava qualquer inquietação. O meu olhar, de tanto brilho, competia com o sol... e ganhava. O calor daquele ser recém chegado estranhamente familiar derretendo o gelo e o transformando em coração me tornava mais acessível a mim. O amor usurpando a trivialidade, tornando todos os momentos tão únicos. Envolta no aconchego de braços acolhedores, mãos afetuosas e beijos inflamados, eu me elevava a uma experiência transcendental.
O mundo havia se tornado lar. A previsão do tempo só me dizia que o tempo passava muito rápido quando ele estava perto e por isso eu deveria viver e gravar o máximo de detalhes daquela realidade sem precedentes. Ás vezes era difícil crer que a sorte, enfim, me sorteara dentre 7 bilhões de possibilidades. Cada instante era um presente regado pela fé na esperança de um futuro intenso e tranquilo, achado.
Foi quando em um piscar, mais que de repente, de súbito, outro susto me obriga a reorganizar tudo que já estava arranjado. A sorte reparou o equívoco e levou de volta o bálsamo que, por engano, deixou pra mim. O corte, de tão brusco, anestesiou antes mesmo de doer. Como se eu estivesse nos segundos finais da queda livre antes do baque brutal no solo duro, seco. De novo volto a escrever a minha biografia que fora pausada para a narração de um sonho que, repentina e despretensiosamente, começou e já chegou ao fim.

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