domingo, 31 de maio de 2015
Contando perdas
(Skylar Grey - Beautiful Nightmare)
Não é só você que foi embora. Foram com você todos os sonhos, todos os planos que fiz nesses dias nos minutos antes de pegar no sono. Foram com você o desejo do vinho de sexta-feira a noite, das reuniões de sábado com nossos amigos no seu a.p, dos passeios de domingo no parque. Se foram as viagens que cogitei um dia curtir do seu lado. O friozinho e uma lareira no Sul, o calor no litoral do Nordeste, as descobertas na Europa, o romance numa gôndola em Veneza, o champanhe em algum réveillon em Paris, o piquenique em frente à Torre Eiffel, as férias das crianças na Disney.
Quem me dera se apenas você tivesse ido embora. Mas com você foi embora o projeto de um futuro. Foram com você o rostinho que imaginei que meus filhos teriam, as brincadeiras que nós dois faríamos com eles, a forma como nós dois conduziríamos os mimos e os limites. Foram junto a casa com jardim, o café da manhã pra você na cama, preparar seu prato preferido no almoço de fim de semana, sua bagunça no quarto. Foram embora também as sessões de cinema, você assistindo Amélie Poulain só porque é meu filme preferido, escutando música francesa só porque eu gosto, eu indo pra balada porque você adora, nós dois tomando café porque temos esse gosto em comum.
Você foi embora e foram com você as dificuldades que superaríamos. Foram com você os abraços de consolo, os beijos de alegria, as lágrimas de perdão. Se foram as histórias pros nossos netos de como nos conhecemos. Foram as fotos do nosso casamento, da formatura dos nossos filhos, a caixa velha de lembranças de um vida, as embalagens de presente, os objetos guardados, as coisas pequenas e significativas, o vestido de noiva e o guardanapo escrito "eu te amo". Foram as compras no supermercado, a reforma da nossa casa, a escolha dos móveis novos, o esforço pra economizar nos tempos de crise.
Se somente você tivesse ido embora não teria sido tão ruim. Mas você foi e foram junto seu sorriso, seu jeito de olhar, sua boca, seu cheiro, seu cabelo, seu corpo, suas roupas. Foram embora o tom da sua voz perto do meu ouvido, as músicas que ouviríamos juntos, os textos sobre nosso amor que te dedicaria Se foram a forma como me tocava, seu jeito de andar, seu carinho, a saudade que eu sentia sabendo que você voltaria. Se foi tudo de você, minha kryptonita e meu melhor remédio. Não foi só você que foi embora, foi embora também a maior parte de mim.
Autobiografia
(Uma música pra não deixar de ouvir -> Dani Black - Deixar o barco ir)
Acho que se minha mãe tivesse dito a verdade sobre como é a vida de fato, eu não teria solicitado a minha saída daquele lugar tranquilo em que tinha tudo que precisava sem nenhum esforço. Não por escolha minha, mas por vontade de Deus, dos meus pais, do destino, enfim, eu nasci. E desde aquele glorioso feriado de uma sexta-feira de 1990, venho aprendendo esse negócio de vida. Desde aquele glorioso dia renasço todos os dias, querendo, às vezes, retornar àquele lugar do qual não me lembro, mas que sei que já estive.
Ouvi dizer que nos meus tempos de bebê muitas vezes eu tentei falar, fazer com que me entendessem, enquanto todos me olhavam como cara de bobos sem a mínima ideia do que eu estava dizendo. Que algumas vezes sentia dores que pareciam se alastrar pelo corpo inteiro e não era possível precisar onde começava, onde terminava. Disseram-me que em diversas ocasiões eu não alcancei objetos que queria e que inúmeras vezes caí tentando me manter de pé na caminhada. Contaram ainda que muitas vezes chorei de medo e pedi colo, mas que apesar de tudo isso todos os dias eu brincava e sorria como se cada dia fosse único e incomparável.
De nada me lembro daquela época, mas, pelo que sei do viver, desde aquele tempo eu já era forte. Ainda hoje passo por momentos em que sinto que não falo a mesma língua dos demais, tamanha é a sensação de incompreensão. Ainda hoje chego a sentir dores que devastam a alma, que doem no corpo todo, que chegam a enfraquecer. Tenho sonhos que parecem por demais difíceis e amores distantes que parecem fora do meu alcance. A caminhada às vezes é exigente demais, eu tropeço e caio. Choro de medo e preciso de colo muitas vezes. E sei como é custoso superar esses momentos. E apesar de tudo tento seguir com serenidade.
Desde aquele glorioso primeiro dia de vida venho praticando o verbo viver com toda propriedade de primeira pessoa. Desde aquele dia tenho aprendido a encontrar maneiras diferentes de me fazer entender. E mesmo que os outros não me compreendam, compreender-me e me aceitar já é uma grande conquista. Tenho aprendido que para toda dor aguda e lancinante há o amor crônico e incondicional dAquele que me criou. Que às vezes devo renunciar um desejo por que pode ser apenas capricho, mas que há um mundo de outras possibilidades para ser explorado. Tenho aprendido que quando a gente cai, a gente levanta e continua. Tenho aprendido que os medos sempre existirão e, felizmente, os colos também.
Hoje, pensando em todas as minhas lutas e vitórias, penso também que talvez tenha sido bom minha mãe não ter me contado a verdade sobre a vida quando eu ainda estava naquele lugarzinho passivo e seguro. Pois correríamos o risco, o mundo, ela e eu, de que eu me apressasse e quisesse começar a aventura antes do tempo!
Assinar:
Comentários (Atom)


