(Uma música pra não deixar de ouvir -> Dani Black - Deixar o barco ir)
Acho que se minha mãe tivesse dito a verdade sobre como é a vida de fato, eu não teria solicitado a minha saída daquele lugar tranquilo em que tinha tudo que precisava sem nenhum esforço. Não por escolha minha, mas por vontade de Deus, dos meus pais, do destino, enfim, eu nasci. E desde aquele glorioso feriado de uma sexta-feira de 1990, venho aprendendo esse negócio de vida. Desde aquele glorioso dia renasço todos os dias, querendo, às vezes, retornar àquele lugar do qual não me lembro, mas que sei que já estive.
Ouvi dizer que nos meus tempos de bebê muitas vezes eu tentei falar, fazer com que me entendessem, enquanto todos me olhavam como cara de bobos sem a mínima ideia do que eu estava dizendo. Que algumas vezes sentia dores que pareciam se alastrar pelo corpo inteiro e não era possível precisar onde começava, onde terminava. Disseram-me que em diversas ocasiões eu não alcancei objetos que queria e que inúmeras vezes caí tentando me manter de pé na caminhada. Contaram ainda que muitas vezes chorei de medo e pedi colo, mas que apesar de tudo isso todos os dias eu brincava e sorria como se cada dia fosse único e incomparável.
De nada me lembro daquela época, mas, pelo que sei do viver, desde aquele tempo eu já era forte. Ainda hoje passo por momentos em que sinto que não falo a mesma língua dos demais, tamanha é a sensação de incompreensão. Ainda hoje chego a sentir dores que devastam a alma, que doem no corpo todo, que chegam a enfraquecer. Tenho sonhos que parecem por demais difíceis e amores distantes que parecem fora do meu alcance. A caminhada às vezes é exigente demais, eu tropeço e caio. Choro de medo e preciso de colo muitas vezes. E sei como é custoso superar esses momentos. E apesar de tudo tento seguir com serenidade.
Desde aquele glorioso primeiro dia de vida venho praticando o verbo viver com toda propriedade de primeira pessoa. Desde aquele dia tenho aprendido a encontrar maneiras diferentes de me fazer entender. E mesmo que os outros não me compreendam, compreender-me e me aceitar já é uma grande conquista. Tenho aprendido que para toda dor aguda e lancinante há o amor crônico e incondicional dAquele que me criou. Que às vezes devo renunciar um desejo por que pode ser apenas capricho, mas que há um mundo de outras possibilidades para ser explorado. Tenho aprendido que quando a gente cai, a gente levanta e continua. Tenho aprendido que os medos sempre existirão e, felizmente, os colos também.
Hoje, pensando em todas as minhas lutas e vitórias, penso também que talvez tenha sido bom minha mãe não ter me contado a verdade sobre a vida quando eu ainda estava naquele lugarzinho passivo e seguro. Pois correríamos o risco, o mundo, ela e eu, de que eu me apressasse e quisesse começar a aventura antes do tempo!

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