segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Lição #4: Sujeito Oculto


(Trilha do sonho: Pedro Pascual e Tiê - Cor Favorita)

Te amo de longe. 

E de longe continuarei. 

Não quero correr o risco de machucar ainda mais o seu coração que já tem carregado a bagagem da maior, imprevisível e inevitável. 

É um grande egoísmo da minha parte pensar em expor um pouco que seja do meu amor mal intencionado quando você acabou de perder o amor. Você sabe como ele é, mas imagino não o  querer por perto tão cedo. Hoje, talvez, nunca. 

Dores profundas trazem desesperança com certa frequência. Não que esse seja o único motivo que me mantém distante. 

Há um mundo de impossibilidades entre nós. Nós cada vez mais difíceis de desatar. Eu não posso me aproximar, sob pena de partir corações. São tantas vidas entre nossas vidas. 

Por isso é melhor que eu siga assim, te amando de longe, com as palavras que me são permitidas, com aperto de mão no lugar do abraço apertado e do carinho no rosto. 

Consigo dar todos os limites aos verbos e mãos, sei, porém, que é provável que me deixe revelar pelo olhar abobalhado e sorriso frouxo. Considere como só algumas características peculiares e siga fingindo que nada aconteceu. 

Quem sabe um dia seremos mais. 

Por hora ficamos combinados, eu de te amar de longe e você de não saber. 

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

É só coisa da minha cabeça...

(Reggaeton Triste - Manu Gavassi)

Você estava ali, como quem não quer nada. E talvez nada quisesse mesmo. A vida era só aquilo, aquele momento. Uma conversa leve e boa ritmada pelo seu tom de voz estável e ameno. Uma distância incoveniente entre nossos corpos que era diminuída por milésimos de segundos de flertes inocentes pelo olhar. Às vezes sinto que você também sente um lampejo de frio na barriga que dura tão pouco que quase não dá pra perceber. Mas que quando é sentido se transforma numa fagulha de calor. 

Conversas com você são sempre tão enriquecedoras. Nossas ideias se encaixam de um jeito fluido e natural. Porém, confesso que gostaria de estar vivenciando sua presença de formas diferentes. Experimentar uma comunicação em outro nível. Um diálogo de corpos que se encaixam de um jeito fluido e natural. 

Desejos velados por flertes inocentes demandam lugares secretos compartilhados a dois. Certos lugares são um convite para findar distâncias inconvenientes. Seria deliciosamente agradável conhecer alguns deles com você. Poderíamos divagar sobre o tempo e as mudanças da sensação térmica que, curiosamente, aumenta a medida que as roupas caem no chão. 

Eu tenho o hobbie de procurar maneiras de executar as situações que já estão criadas na minha cabeça. Gosto de pensar que a qualquer passo a gente vai se esbarrar e depois de um café, eu vá direto pra sua boca. Há uma chance não ser bom? De acordo com a realidade, sim. Vamos nos permitir descobrir?! 


quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Onde moram as certezas?


(What Was I Made For? - Billie Eilish)

Parece que todos os indícios apontam para apenas um fato e eu... Eu me esforço para fazer o caminho inverso. Aquela velha tentativa de nadar contra a maré, com o agravante de que não são apenas ondas seguindo o fluxo cotidiano natural, é um tsunami que pode mudar todo o curso da minha vida. 

Às vezes é tão difícil lidar com o fardo da liberdade das minhas escolhas. Cada uma delas envolve perdas que eu não quero ter. E isso soa tão egoísta e infantil que chego a me assustar comigo mesma. Não sei o porquê de tanta dedicação em suprimir minha intuição, meu coração que, volta e meia, se vê procurando pequenas recompensas para preencher o eco dentro dele. 

Eu queria estar mais feliz. Eu merecia estar mais feliz. Peço a Deus com tanta veemência essa pontada de alegria flamejante, com a urgência de quem sente que está prestes a partir e nunca mais voltar. Sinto medo de partir de mim mesma, de me perder só pra que outra pessoa supostamente se encontre. 

Por outro lado é estranho pensar em largar tudo e deixar o outro ir. Estranho, porém o justo, talvez. Será que sentir dúvida já é a resposta? Será que o próximo passo é não dar o próximo passo? Onde moram as certezas?

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Do fundo da gaveta


(Coisas velhas merecem trilhas aconchegantes - Marcelo Jeneci - Ritos)

Você tinha cheiro de incenso e coisas velhas. Irritava o meu nariz alérgico, às vezes, mas era aconchegante como cobertor antigo de estampa xadrez. E era assim, um incômodo confortável, de fácil resolução. Sempre foi tudo tão fácil com você. A vida se fundia entre surpresas e nostalgias, tal qual tardes em que se tira coisas de um baú antigo, que são atravessadas por risos e saudosismo. 

O que você deixou, já não é mais. Diluí ao longo dos dias, de acordo com a previsão do tempo. Esperei os ventos bons para levar cada fragmento seu para os lugares que nos desejei. Deve ter você em Bali, Marajó, Patagônia e até no Monte Roraima. Aqui só ficou o seu cheiro de incenso e coisas velhas. Velhas como as páginas amareladas em comum no livro das nossas vidas. Releio ocasionalmente quando os dias estão filtrados em sépia. A nossa prosa parecia um romance completo, mas era só o ensaio de uma crônica. Apesar disso podemos nos considerar escritores esforçados. Existem passagens bonitas, embora efêmeras. Ainda assim, você pode visitar vez em quando. Faz bem passear entre reminiscências doces, velhas conhecidas. Já não lembro mais da sensação térmica da sua pele, mas o cheiro...

Porque cheiro de incensos baratos são tão fortes e chegam tão longe? Desculpa se soou ofensivo comparar seu cheiro a incensos baratos, mas incensos baratos não são ruins. Na verdade são verdadeiramente únicos. Sentimos e logo sabemos que se trata de um incenso barato. E no fim das contas,  nosso encontro não passou disso - de uma fagulha de incenso que se acendeu, todo mundo notou e se foi - porque foi feito tão somente para isso: acabar. Mas o cheiro... O cheiro impregna. O cheiro gruda nas paredes da memória. Talvez eu também tenha um pouco desse cheiro. Daquela marca que todo ser humano significativo tatua na alma de outro ser humano que se deixa ser marcado. 

Espero que fique bem na minha caixa de coisas velhas. O mundo está deveras diferente, a vida mudou. Entretanto, como uma boa velha saudosista que sou, voltarei para tirar a poeira e farei companhia em um possível texto sobre passados. Só não acostume porque não me demoro. Preciso abrir caixas para os meus novos presentes (e ir correndo tomar um remédio para essa coceirinha no nariz!). 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

(a)temporalidade


Foi dia desses e já faz dez anos. 

O tempo passou ligeiro como um raio, imponente, às vezes assustador, mas sempre efêmero. 

A vida rolou olhos à fora, frente aos clarões do tempo. Olhos à dentro, passo. Passo sem movimento, congelada na última cena. Quando num adeus você se tornou senhor de todas as horas e num só comando mudou a cadência dos sentidos. Agora cada lampejo de tempo dura o suficiente pra me manter em estado de choque, paralisada enquanto tudo vai. E tudo se esvai rapidamente nos séculos de segundos da sua ausência. 

Sucumbi ao tempo enquanto minha agonia sobrevive. Dissolvi. Hoje sou toda ela - a agonia -, um soluço permanente. Parece que vai passar, mas volta, insiste, exige outro susto ou intensidade que faça o ar voltar à rota. É como o tempo ligeiro e demorado. 

Enquanto o tempo não para, eu passo.