domingo, 18 de junho de 2017

A menina - Lado B



(Ela gosta de dançar ♫ A menina dança - Novos Baianos)

Essa menina anda cheia de si
Toda se querendo para o lado de umas aventuras 
Dançando para o imprevisível
Descartando o improvável
Seduzindo as possibilidades de deleite
Provocando situações a seu bel-prazer

Menina caprichosa, cheia de marra 
Brincando de ser solúvel em alguns braços
Mostrando-se voluptuosamente concreta 
Fatalmente fluida e abstrata 
Como um sonho, fragmentada 
Sem lógicas que possam chegar perto de decifrá-la 

Ah... essa menina faceira 
Louca, desprendida, enérgica, vivaz 
Discretamente espia tudo em volta
Descaradamente acerta o alvo 
Envolve a presa em seu ritual místico 
Apaixona e não se deixa apaixonar

Essa menina é sem juízo 
É de pés descalços, de café forte e amargo 
É de chuva no rosto, de cabelo solto
É de beijos intensos, lascivos, indecentes 
É de entregas despidas, carnais, karmáticas 
Desnuda de pretensões, sagaz 

Da pá virada... Desvairada! 
Perigosa e indefesa 
Ela é tão fácil de lidar 
Sem pudores, sem jogos, sem regras
Sem manual de instrução, sem receitas 
Tão somente uma libertina inocente 

A menina


sábado, 17 de junho de 2017

Karma




(Clarice Falcão - Um só)

Eu não quero dividir você com mais ninguém no mundo.
O meu egoísmo e sobretudo a minha imaturidade querem todos os seus detalhes e sorrisos somente nos meus cantos.
Só eu posso cantar e escrever sobre as coisas que te compõe.
Só eu tenho paciência suficiente para lidar com suas rabugices.
Só eu me sinto confortável na bagunça da sua vida.
Só eu consigo arrumar o seu quarto.
Então, eu não tenho condições de dividir qualquer pedacinho de você com o mundo.
Como se fosse possível não dividir você com universo!
Eu bem sei que isso é um desejo irrealizável.
Já não há como dissolver o eu/tu para conjugar o que quer que seja.
Você misturou na minha alma elementos da sua que são indissociáveis.
Quando me mostro aos outros, mostro também a parte de você que está no que sou.
Ao ser e viver deparo-me inevitavelmente com a obrigação de dividir você com qualquer pessoa que cruze minha existência.
E em mim, uma verdade dolorosamente linda:
Você estará sempre aqui.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Uma tarde de um domingo qualquer


(Sandy - Segredo)

Moço, hoje é domingo e domingos tendem a ser dias aleatórios na existência humana. Por ser domingo foi mais fácil perceber o tamanho do vazio ali na sala. É tão grande que me espremeu no canto do sofá. Foi ficando maior e eu tive que vir para o quarto. Tranquei a porta, na esperança de que ele não entrasse, mas ele invadiu mesmo assim e agora está deitado ao meu lado na cama. Você deve saber que eu sempre me refugio nas palavras, nos meus pensamentos confusos, então escrevo. Escrevo sobre o passado, que me dá você de presente todos os dias. E todos os dias você vem com sua presença cheia de vazio. E todos os dias eu sinto ausência. Ausência até de mim.

Acho que essa é a primeira vez que te escrevo depois daquele tempo. Aquele tempo em que a gente não era nada um do outro, só se dava bem. E sorrir, talvez, fosse um dos poucos motivos pelos quais tínhamos ânimo pra ficar juntos. Mas arrancar sorrisos de alguém como você - apaixonado pelos detalhes simples e lindos da vida - não é tarefa das mais difíceis. Qualquer pessoa pode te provocar risos. Sabe, eu me lembro que no começo eu não me importava por onde você andava e nem com quem andava. Depois de um tempo dei por mim que algo não estava no lugar certo. E foi quando comecei a ter medo, não de saber onde você estava, mas com quem. De repente, saber que você
estava com outra, me causava estranheza, incômodo. Um incômodo que eu não gostava de sentir.

Eu nunca quis admitir que estava sentindo algo. A confusão era imensa aqui dentro. Fazia barulho. Tanto barulho que as vezes eu nem dormia. Eu me punia dizendo pra mim mesma que era terminantemente proibido me envolver com alguém. Por outro lado, a minha mania de querer viver e sentir tudo intensamente, falava que eu podia me jogar de olhos fechados porque o importante é o sentimento, a emoção, a experiência incrível de chegar ao topo e depois simplesmente descer, sem trazer nada lá de cima. Eu não tinha ideia do que fazer, moço. O tempo passando. Eu querendo acabar com aquilo que nos unia, que nem sei o nome, mas sempre que você vinha eu só me entregava um pouco mais. Era quase um ciclo vicioso. Por sorte, um de nós teve coragem o bastante para cortar esse laço que sempre foi tão frágil.

Perdoe o meu saudosismo, moço. De fato, nem eu sei bem porque estou escrevendo pra você. É quase um masoquismo, depois de longas datas, ainda pensar em você como se tivesse passado por aqui ontem à noite. Talvez tenha sido ontem. Tenho perdido a noção do tempo depois que você foi embora. Isso ficará bem perceptível no final dessa carta. Ao lado do lugar não tem uma data. Não sei que dia é hoje. Pra mim é só mais um dia do meu presente longe de você, mais um dia de passado. Mas o lugar continua o mesmo, talvez pela esperança de que um dia você entre sem avisar. Eu espero que você esteja bem.

Até a próxima carta!

BSB, uma tarde de um domingo qualquer. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Escandalizar


...Era sempre uma sensação estranha de estar engasgada com tanto sentimento. Toda aquela racionalidade a revestia de uma imbecilidade desmedida na difícil tarefa de dizer o que sentia. Tantas oportunidades perdidas fincadas na memória, enraizadas em muito arrependimento e orgulho ferido. Então, como um soluço repentino, a distância imposta pelo olhar de quem mais queria perto, quase que ocupando o mesmo espaço no universo, veio como um soco no estômago. Um soco que de tão forte impulsionou para fora tudo que estava entranhado na alma. 
Agora o desespero é outro: o querer inquietante de falar, gritar, exagerar... Fazer escândalo...

sábado, 10 de junho de 2017

A menina



(Yasmin - Meu jeito de agir)

Ela não conseguia dizer o que sentia. Provavelmente porque nem ela mesma sabia. Mantinha por fora uma fortaleza na tentativa de preservar a imensa vulnerabilidade que a ameaçava aniquilar. Mal podiam supor os outros que a base daquele muro todo era frágil e com qualquer sopro poderia desmoronar, relevando a instabilidade da menina. O terror de parecer fraca roubava-lhe as forças.
Tão sutis eram suas lágrimas que faziam apenas brilhar seus olhos. Tão torrenciais eram que afogavam seu interior. Quantos gritos ecoaram no silêncio daquela menina encolhida no canto da parede do quarto. Quantas oportunidades ofereceu para que alguém ouvisse suas palavras que, ainda que caóticas, tentavam desesperadamente organizar sua história.
Tantos eram os pontos de interrogação que teimavam em pairar no coração da menina. Ela procurava as respostas no mundo, nos outros, nela mesma, quem sabe. Mas como poderia achar nela mesma se nunca havia se encontrado?
Indefesa aquela menina. Consumia-se com o medo de ser destruída com seus próprios sentimentos. Fortes, confusos. Gigantesca a alma dessa menina. Cabia tanta coisa que ela não sabia o que faltava, nada era tão grande que pudesse completá-la. E se sentia tão pequena, deslocada em meio a tanta gente. Sozinha entre as pessoas e absurdamente atordoada com todos os próprios eus que a acompanhavam na solidão.
Insegura. Vivia a aflição de não saber o que a poderia salvar de si.
Um dia a menina desabou, descontrolou-se, diluiu-se intensa e amarga como o café que tomava todas as tarde. Encarou a desordem e sorriu para o emaranhado da bagunça interna que ela mesma criara. Parou de tentar fugir da confusão e passou a fazer algazarra com cada detalhe, por mais estranho que fosse ele.
Boba a menina!
Descobriu que só precisava se entregar à loucura para enxergar com lucidez.