quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Luto... e nunca vou deixar de lutar!


Há exatamente 1 ano eu entrava no centro cirúrgico para a retirada do colo do útero e, junto, o câncer que havia se desenvolvido ali. Tudo estaria resolvido! Mas vida é vida, né?! O tudo mudou em poucos instantes e o planejado tomou outro rumo (embora soubéssemos da pequena, mas real possibilidade de que acontecesse assim). Durante o procedimento se viu o que os exames não mostraram: não adiantaria retirar o colo porque a radio e a quimio seriam necessárias de qualquer jeito (e com tudo isso o tumor sumiria). Procedimento abortado e como medida profilática, sábia e inteligente da minha médica, foram retirados os meus ovários (ela me explicou tudo direitinho e sou muitíssimo grata a ela por cada decisão que tomou). E nesse dia tanta coisa mudou! Tanta coisa! 

Há 1 ano estou na menopausa. E não, menopausa não é coisa de mulher "velha"! Existem muitas mulheres que vivem a menopausa precoce e com acompanhamento ginecológico, atividade física, boa alimentação, é possível viver muito bem, mesmo para as que entraram na menopausa naturalmente com a chegada dos anos. Hoje faço uma reposição hormonal super tranquila e leve, e levo uma vida plena nesse sentido. Sou muito sortuda e abençoada por não sentir as "ondas de calor" e nenhuma dor de cabeça relacionada a isso. Claro que existem vários outras questõezinhas e cuido bem de perto de cada uma delas. 

Há 1 ano não menstruo mais. Isso é curioso porque, apesar de nunca ter sido a maior fã do período menstrual, era algo que me acompanhava todos os meses há 20 anos. Durante uns 5 meses eu fiquei contando por quanto tempo não menstruava mais. "Faz 1 mês que não menstruo." "Hoje faz 46 dias que não menstruo mais". Claramente a vivência de um luto que terminou quando respirei fundo e falei firme comigo mesma, "chegou a hora de parar de contar!" 

Há 1 ano vivo a ressignificação da maternidade. Eu ainda não sou mãe e mesmo sabendo que ser mãe vai muito além de gerar uma criança, os sentimentos e as sensações explodiram (e, vez ou outra, ainda explodem) dentro de mim. Aquele bichinho que aperta o coração, às vezes aparece quando alguma pessoa próxima e querida anuncia a gravidez, não por inveja ou não por me sentir feliz pela pessoa, mas pelo fato de saber que eu nunca passarei por esse processo da gestação biológica e era algo que eu desejava. É outro luto! E tudo bem sentir assim! Por outro lado, tem se tornado cada vez mais clara a grande diferença entre ser mãe e gestar (no útero). Quando eu decidir ser mãe e gestar (no coração), só quero ter a sabedoria para educar e dar todo amor que tenho. Nas minhas orações já peço que Deus proteja os meus filhos (que virão pela adoção e talvez ainda nem tenham nascido, ou sim!) e a progenitora deles. Eu sou um ser humano incrível por pensar em adoção? Não! Aliás, uma das minhas missões de vida agora é propagar que adoção é somente mais uma forma de exercer a parentalidade e precisamos naturalizar isso. 

Ser mulher, ser mãe, ser profissional...
Quanta coisa mudou no dia 7 de outubro de 2020. 
Mas apesar de todas as lutas, lutos, choros e dores que tive ao longo desse ano... Sobressai a felicidade extrema de ter sido curada e de continuar sendo eu, na essência! 
A minha gratidão ainda consegue ser infinitamente maior que o bichinho que, às vezes, aperta o coração. 

(Ah! Um agradecimento especial a minha psicóloga, Gabriella, que me ajuda a passar por todos esses lutos de uma maneira muito mais leve). 

domingo, 18 de abril de 2021

Inacabada



(Vander Lee - Meu Jardim)


O sangue jorrando medo

Um corpo tentando se reconhecer 

No caos de uma espiral de emoções

O assombro de perceber 

Que não tenho controle 

Em tudo que é supostamente meu

Um caminho sobre mim a percorrer 

Cada célula, cada canto, cada milímetro  

Para ler, aceitar, assumir, reescrever 

A urgência da faxina no espaço 

Ocupado pela angústia 

O desejo que a paz volte a preencher 



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

MMXX



Acabou o carnaval que não teve. Já é quase março e em mim um delay e a necessidade de falar sobre o ano que passou e deixou rastros que nem a passagem do mar e do tempo apagam. No meio de uma pandemia eu me perdi. No meio de um câncer, comecei a me encontrar. A inércia e a efervescência das emoções. Não poder me movimentar sozinha, não ter o meu momento, meus pensamentos pareciam não ser mais meus. Ter que lidar com a onipresença do outro, a impossibilidade de me espalhar no mundo e me juntar nas palavras que surgem quando uma alma andarilha encontra o vento da solidão. Os limites pandêmicos, levaram minha essência para longe, além dos muros claustrofóbicos. 

E apareceu o câncer. Assustador. Uma parada obrigatória do fluxo de energia voltado para o externo, para focalizar totalmente aqui.. aqui dentro. Ficar distante da minha vida, me fez pensar em como quero viver. Dar uma longa pausa no trabalho me ajudou a compreender a necessidade de pensar numa forma de trabalhar menos e de forma mais eficiente. Estar com uma doença grave estando tão nova, amadureceu minha alma em mais 30 anos. Minha tolerância para arrastar incômodos está menor ainda. Não tenho disposição para entrar em discussões sem fundamento e a boca se abre mais facilmente para dar vazão a o que quer que seja, que faça ou não sentido. Hoje o meu corpo também parece velho, músculos e ossos cansados, voltando à forma pouco a pouco. Não me reconheço em meus braços, pernas, rosto e sobretudo na minha barriga, mas estou em processo de recuperação. Parei de reclamar da vida e encontrei como missão tornar todos os meus surtos menos frequentes e sempre justificáveis. 

Alcançar a cura do câncer e estar sobrevivendo nessa pandemia, me deu uma saudade tão grande de mim. Nesse ano novo, que comecei com tanta vontade e intensidade, só quero arrumar minha bagagem com os aprendizados que conquistei e pegar o trem de volta pro meu interior. Curtir minha nova configuração, resgatar meus detalhes, meus cheiros, minhas letras. (Ins)Pirar parar retornar a minha sanidade. 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Lição #3: Sujeito Composto



Não quero ser necessária.
Se puder me conceder um pedido é unicamente o de que você se sustente sem me colocar como pilar. Minha coluna não é forte o suficiente para suportar o peso da responsabilidade de duas vidas.
A certeza absoluta impede a vontade da conquista.
Desejo o desafio de te manter aqui. De me manter aqui.
Quero nós e que nós não atem(os) o singular de nós.
Que a distância, às vezes precisa, não seja precisa, mas respeitada e vivida.
O medo de perder alguém não deve ser maior que o medo de perder a si.
Não me entenda como um ente místico sem o qual não pode viver.
Não me sinta com o apego do amor inseguro.
Se tenha com leveza. 
Me leve sem pesar.