quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

MMXX



Acabou o carnaval que não teve. Já é quase março e em mim um delay e a necessidade de falar sobre o ano que passou e deixou rastros que nem a passagem do mar e do tempo apagam. No meio de uma pandemia eu me perdi. No meio de um câncer, comecei a me encontrar. A inércia e a efervescência das emoções. Não poder me movimentar sozinha, não ter o meu momento, meus pensamentos pareciam não ser mais meus. Ter que lidar com a onipresença do outro, a impossibilidade de me espalhar no mundo e me juntar nas palavras que surgem quando uma alma andarilha encontra o vento da solidão. Os limites pandêmicos, levaram minha essência para longe, além dos muros claustrofóbicos. 

E apareceu o câncer. Assustador. Uma parada obrigatória do fluxo de energia voltado para o externo, para focalizar totalmente aqui.. aqui dentro. Ficar distante da minha vida, me fez pensar em como quero viver. Dar uma longa pausa no trabalho me ajudou a compreender a necessidade de pensar numa forma de trabalhar menos e de forma mais eficiente. Estar com uma doença grave estando tão nova, amadureceu minha alma em mais 30 anos. Minha tolerância para arrastar incômodos está menor ainda. Não tenho disposição para entrar em discussões sem fundamento e a boca se abre mais facilmente para dar vazão a o que quer que seja, que faça ou não sentido. Hoje o meu corpo também parece velho, músculos e ossos cansados, voltando à forma pouco a pouco. Não me reconheço em meus braços, pernas, rosto e sobretudo na minha barriga, mas estou em processo de recuperação. Parei de reclamar da vida e encontrei como missão tornar todos os meus surtos menos frequentes e sempre justificáveis. 

Alcançar a cura do câncer e estar sobrevivendo nessa pandemia, me deu uma saudade tão grande de mim. Nesse ano novo, que comecei com tanta vontade e intensidade, só quero arrumar minha bagagem com os aprendizados que conquistei e pegar o trem de volta pro meu interior. Curtir minha nova configuração, resgatar meus detalhes, meus cheiros, minhas letras. (Ins)Pirar parar retornar a minha sanidade. 

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