Hoje, aqui, olhando pra você, me dou conta de que nem sempre é preciso fazer as malas pra ir embora. Eu não quero fazer minhas malas, ao contrário, quero expô-las. Quero abrir todos os compartimentos, esvaziar, virar do avesso, tirar tudo de cada canto.
Não quero partir com o peso dessa bagagem tão cheia de culpas, de remorsos, de dores. Seria uma autopunição insuportável arrastar comigo nessa e em outras vidas esses pacotes que eu mesma miseravelmente preenchi
Comigo levarei apenas uma caixinha delicadamente enfeitada de memórias bonitas e felizes. Vou guardá-la escondida, num lugar seguro. Abrirei somente quando as lembranças nela contidas não me dilacerarem mais.
Sei que você não carrega malas. Por um lado isso me conforta. Conforta saber que não deixei peso. Conforta saber que fui leve. Também sei que estarei guardada na sua caixinha de lembranças felizes. Por outro lado dói perceber que há muito você se foi e tenho vivido com sua sombra. Com a imagem criada pela minha ilusão ou teimosia.
Mas é por tudo que fez por mim e pelo que me tornei por você que não quero carregar malas nessa viagem tão longa e vazia que será o resto da minha vida.
Vê que essa bagagem é repleta de bagunça de nós? Peço que faça um último esforço por mim e me ajude a deixar tudo ajeitado. Não quero que essas malas sejam extraviadas pois pretendo não correr o risco de que voltem em algum momento, revertendo-me na angústia e no sufoco. Não posso correr o risco de morrer submersa no oceano de palavras ainda não ditas que já, nesse momento, fazem um tsunami de aflição dentro de mim.
Peço apenas, meu amor, paciência pra ficar até o fim. Esteja comigo, jogaremos tudo fora. Não sairei nem com a roupa do corpo. Levarei apenas alma.









