terça-feira, 13 de junho de 2017

Uma tarde de um domingo qualquer


(Sandy - Segredo)

Moço, hoje é domingo e domingos tendem a ser dias aleatórios na existência humana. Por ser domingo foi mais fácil perceber o tamanho do vazio ali na sala. É tão grande que me espremeu no canto do sofá. Foi ficando maior e eu tive que vir para o quarto. Tranquei a porta, na esperança de que ele não entrasse, mas ele invadiu mesmo assim e agora está deitado ao meu lado na cama. Você deve saber que eu sempre me refugio nas palavras, nos meus pensamentos confusos, então escrevo. Escrevo sobre o passado, que me dá você de presente todos os dias. E todos os dias você vem com sua presença cheia de vazio. E todos os dias eu sinto ausência. Ausência até de mim.

Acho que essa é a primeira vez que te escrevo depois daquele tempo. Aquele tempo em que a gente não era nada um do outro, só se dava bem. E sorrir, talvez, fosse um dos poucos motivos pelos quais tínhamos ânimo pra ficar juntos. Mas arrancar sorrisos de alguém como você - apaixonado pelos detalhes simples e lindos da vida - não é tarefa das mais difíceis. Qualquer pessoa pode te provocar risos. Sabe, eu me lembro que no começo eu não me importava por onde você andava e nem com quem andava. Depois de um tempo dei por mim que algo não estava no lugar certo. E foi quando comecei a ter medo, não de saber onde você estava, mas com quem. De repente, saber que você
estava com outra, me causava estranheza, incômodo. Um incômodo que eu não gostava de sentir.

Eu nunca quis admitir que estava sentindo algo. A confusão era imensa aqui dentro. Fazia barulho. Tanto barulho que as vezes eu nem dormia. Eu me punia dizendo pra mim mesma que era terminantemente proibido me envolver com alguém. Por outro lado, a minha mania de querer viver e sentir tudo intensamente, falava que eu podia me jogar de olhos fechados porque o importante é o sentimento, a emoção, a experiência incrível de chegar ao topo e depois simplesmente descer, sem trazer nada lá de cima. Eu não tinha ideia do que fazer, moço. O tempo passando. Eu querendo acabar com aquilo que nos unia, que nem sei o nome, mas sempre que você vinha eu só me entregava um pouco mais. Era quase um ciclo vicioso. Por sorte, um de nós teve coragem o bastante para cortar esse laço que sempre foi tão frágil.

Perdoe o meu saudosismo, moço. De fato, nem eu sei bem porque estou escrevendo pra você. É quase um masoquismo, depois de longas datas, ainda pensar em você como se tivesse passado por aqui ontem à noite. Talvez tenha sido ontem. Tenho perdido a noção do tempo depois que você foi embora. Isso ficará bem perceptível no final dessa carta. Ao lado do lugar não tem uma data. Não sei que dia é hoje. Pra mim é só mais um dia do meu presente longe de você, mais um dia de passado. Mas o lugar continua o mesmo, talvez pela esperança de que um dia você entre sem avisar. Eu espero que você esteja bem.

Até a próxima carta!

BSB, uma tarde de um domingo qualquer. 

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