Eu transito entre a racionalidade e o pulsar das emoções. Quase que no mesmo instante em que explodo de ciúmes e medos, sou tomada por uma clareza de pensamento que torna tudo absurdamente límpido e compreensível. Eu também não entendo o porquê de me deixar levar por insanidades e assombros de algo que já foi e não representa nenhum risco para o hoje que se faz tão grande, maior que os meus devaneios puderam imaginar.
No fundo, deve ser só a raiva e a inveja de todos os momentos felizes que você viveu sem que eu estivesse do lado. Mas que audácia ter vivido tantos anos de amor e realizações intensas e incríveis com alguém que não era eu! Tudo que eu vivi não chegou perto de tamanha transgressão. O meu coração pensava se apaixonar loucamente a cada 12 meses. O seu não. O seu foi fiel até o fim. Dia após dia escolhendo aquela mesma pessoa, com terror ou ternura, em meio a deleites ou sacrifícios, fazendo sempre a mesma escolha. Enquanto eu escrevia ensaios, você escrevia um romance com vários capítulos!
Ah! Como não sentir raiva e inveja dessa história escrita sem mim? E como não me alegrar por todos os eventos felizes que você viveu, por todos os dias em que foi amado, por todas as homenagens que recebeu? Ora, quanta alegria sinto por saber que você esteve feliz por tanto tempo, quando estávamos longe. A felicidade, afinal, não pertence a mim para que você não pudesse vivenciá-la em toda sua magnitude. Eu também vivi feliz sem você naqueles dias. Hoje talvez eu demore um bocado a encontrá-la se você não estiver.
E assim eu continuo transitando entre razão e a loucura. Flutuando entre a coerência da lógica e a elucubração das minhas fantasias. É quando numa fresta, no meio dessas divagações, uma certeza se mostra fatal e incontestável:
Nós



