quinta-feira, 30 de abril de 2015
Memórias póstumas
Já passa das seis.
Daqui alguns minutos vai começar aquele instante em que o dia não é tarde e nem noite, é apenas um limbo que se abre aflorando uma sensação melancólica e, ao mesmo tempo, contemplativa. Era nesse delicado e profundo momento que eu me sentava na varanda e, ouvindo meu caos interior, aguardava o santo som da porta se abrindo, indicando que você acabara de chegar. Eram longos e inquietantes os ecos dos ponteiros do relógio. Sempre pareciam desorientados, às vezes lentos demais ou rápidos demais, repercutiam no silêncio a ansiedade que eles também sentiam - a ânsia para ouvir logo o tilintar das chaves no espaço entre a fechadura e mesa. Os ruídos do apartamento disputavam com os berros dentro de mim que, de tanto que queriam sair, silenciavam. Tantos pensamentos embriagados sobrepujavam minha lucidez, indicavam toda as direções para lugar nenhum e o corpo paralisava. E eu só ficava ali,
Cada piscar de olhos naquele instante indefinido era como um sonho - não passam de poucos segundos, mas duram a noite inteira. Minha falsa serenidade não conseguia enganar a tensão que consumia até meus pés descalços. O chão frio não amenizava a erupção do desejo de ouvir seus passos ritmados caminhando até o interruptor da sala para ligar a luz e poder ver com mais clareza o meu alívio pela sua chegada. Enquanto a penumbra da noite se fazia mais evidente, meus braços ensaiavam incansavelmente o abraço e o afago que lhe dariam. Minha boca - diferente dos braços - impulsiva e imprevisível - só aguardava e guardava milhões de surpresas para sua presença. A essa altura a lua já teria interrogado várias vezes se eu não me cansava do mesmo ritual diariamente. E a lua já teria ouvido inúmeras vezes que um dia eu roubaria você definitivamente para viajar comigo pelo céu. A lua ria. E eu continuava ali.
Quando mais próximo do fatal reencontro que apunhalaria num só golpe minha angústia saudosista, as paredes começavam a se derreter, aquelas que eu construí. Entre tantas incertezas, nenhuma dúvida. Nenhum titubear de pernas trêmulas me impediria de levantar da cadeira e me dirigir até você. Eu conseguiria, por mais frágil que pudesse transparecer. Não seria a primeira sexta-feira em que meu corpo passava por essa cerimônia. Porque por mais força que você me desse, o contraponto nunca deixaria de existir. Como uma boa proteção, você favorecia o meu equilíbrio, mostrando-me as polaridades. E era sempre no limbo do dia, quando a fenda das minhas fraquezas se abriam, ao invés de só amor, eu sentia tensão, que só se esvaia com a sua chegada trazendo a calma. Já perto das sete, quando o dia era noite, as ideias passavam ligeiramente. Eu já tinha inventado milhões de histórias, escrito livros e novelas, gravado discos, e depois de visitar muitos lugares, voltava para mim, para você poder me encontrar ali.
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